[642 coisas] Despedida


Era um típico sábado a noite em que você quer sair, mas ao mesmo tempo não quer. Aquele sábado em que você não sabe se vai pra onde todo mundo está indo ou se arrisca um lugar diferente.  No final acabei indo para mesma festinha que todo mundo vai. Seria mais um sábado a noite como muitos outros, na companhia dos amigos de sempre. Seria se não fosse pelo maldito parque de diversões.

Cheguei à festa já avistando rostos conhecidos em vários cantos da festa. A parte ruim de conhecer pessoas que não se falam é que você nunca consegue ficar em um lugar só. E assim fui de grupo em grupo cumprimentando todos, fazendo brincadeiras aqui, rindo, atualizando as fofocas com outro ali. Até que só sobrou o parquinho. Sempre gostei de me divertir nesses brinquedos, com as amigas ao lado então, era risada na certa. Afinal um pouquinho de adrenalina não faz mal a ninguém. Assim eu achava.

A noite estava agradável, nem muito frio nem muito calor. O Dj da noite era ótimo, as coisas estavam inacreditavelmente perfeitas.  Encontrei amigos que em certa época da minha vida eram chicletinhos comigo e que não via fazia um bom tempo. 
Alexandra era uma delas. Era impossível não se contagiar com seu jeito sempre alegre, brincalhão. Nos abraçamos brevemente, pois ela já estava saindo pra brincar mais uma vez em um dos brinquedos do parque de diversões. Ela sempre gostou deles, lembro que sempre que saíamos juntas ela gastava a maior parte do tempo e dinheiro no parque.
Ao que me despedi encontrei Francis e Victor, outros dois amigos da época em que fazia dança. Via Francis constantemente pelo fato de morarmos no mesmo bairro. Mas Victor não. Ele me deu um beijo demorado, dizendo que estava morrendo de saudades, nos abraçamos como se fosse a última vez – mal sabia eu que de fato seria - e eles foram pro parque ao encontro de Alexandra.

Fui ao banheiro e em seguida me encontraria com os três na bilheteria do parque. No banheiro, retoquei o batom, dei aquela arrumada no cabelo que a gente sempre acha que precisa e saí. Se demorei cinco minutos lá dentro foi muito. Mas ao sair, notei a área da pista de dança completamente vazia. De repente tudo ficou em câmera lenta, os segundos e os meus passos.

Fui até a área do parque onde estava a maior concentração de pessoas. Lutei na multidão para finalmente conseguir entender o que estava acontecendo. O aglomerado de pessoas era intenso. Mas no meio havia espaço enorme, para quem via do meio da multidão não tinha nada aparentemente. Fui a busca incansável de saber o que estava acontecendo. Foi quando cheguei perto de um carrinho no chão no meio da multidão, olhei mais a frente e a bilheteira estava vazia e horrivelmente amassada. Subi no carrinho e vi umas das piores cenas da minha vida – se não a pior. 
O carrinho que eu havia subido tinha sido arremessado contra a bilheteria, justamente onde estavam meus amigos. As lágrimas não paravam de descer, o desespero tomava conta de todo meu ser. A única sensação que tive foi de impotência, meus amigos caídos no chão, encharcados de sangue sem que eu pudesse fazer absolutamente nada.

Três horas mais tarde eu soube que naquela noite, aparentemente perfeita eu havia visto Victor e Alexandra pela última vez. Depois desse trágico episódio, os parques nunca mais foram os mesmos pra mim.


[Texto baseado no projeto 642 coisas sobre as quais escrever -
85. Imagine um acidente de seu passado em câmera lenta, incluindo seus pensamentos.]

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