Ela olhava seu reflexo no espelho. Alta, morena e magra. A cada cinco pessoas, quatro a definiam dessa forma. Cuja altura sempre resultava nas mesmas perguntas: já pensou em ser modelo?, você daria uma ótima jogadora de basquete!, por que você não joga vôlei?. E a realidade é que nenhuma dessas sugestões aparentemente favoráveis chamavam sua atenção.
Os olhos de um castanho profundo lhe serviam de escudo camuflando seus medos, incertezas e sentimentos.Que concediam a ela a decisão de revelar ou não tudo o que um dia já viram da vida. Desde os amores leves que a primavera lhe rendeu até o coração frio que o inverno deixou. Quem poderia imaginar que por trás dos traços suaves do seu rosto, da expressão sempre calma e serena, haviam cicatrizes que talvez nem o tempo fosse capaz de apagar.
Seu corpo curvilíneo, sempre bronzeado, era típico da mulher carioca. As pernas longas e torneadas chamavam atenção por onde passavam. Quer fosse pela beleza ou pelo tamanho em si, que devo admitir eram bem grandes. Não é toda mulher que tem 1,80 de altura. Mas pra ela o exterior pouco importava. Ela só queria algo a mais. Alguém que se permitisse ficar mais uns instantes, já que nessa vida muita gente já olhou depressa demais. Alguém que fechasse os olhos pro corpo e abrisse pra alma. E acreditasse que o exterior é apenas uma capa que protege o que ela tem de mais bonito.
Ela suspirou. Admirava através do espelho o corpo avantajado, o rosto fino bronzeado, os cabelos que ondulavam graciosamente na metade das costas. Ela tinha a combinação perfeita pra conseguir o que quer que fosse, porém não era de muita ajuda nesse caso. E o motivo ela sabia bem. Tá faltando gente que saiba enxergar a beleza da alma, antes de valorizar apenas corpo.
Nicolly Costa
[texto baseado no item 1 do projeto 642 coisas sobre as quais escrever]

Nenhum comentário
Postar um comentário